O sensual, de uma forma só nossa

O sensual, de uma forma só nossa

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Metáforas de Liberdade


                                  
  Num exemplo simplista, uma reflexão de momento me levou ao último verso de um poema que escrevi: 'A escolha da liberdade'. Eu era jovem, talvez ainda não a entendesse. Mas a desejava. Resquícios de conceitos? Idealismo? O tempo, sempre o tempo, que dá cara aos momentos, me esboçou o passado: plantava-se no coração dos jovens o idealismo, a liberdade, alegria... trabalho. Mesmo no Brasil, aldeia fechada, que nos fechava também. Desmistifiquei obstáculos que impediam essas sementes de crescer. E tenho muito a aprender. Não sabia se elas venceriam. Meus textos foram meu diário. Eu vi um botão em cada texto escrito, e nas minhas poesias em particular. Foi nelas que aprendi a fazer metáforas.  A realidade se sobrepôs, e as metáforas se transformaram em arte. Jornada difícil. Aventura de vida. A metáfora na vida. Entendi.

  Liberdade tem Beleza, Elegância, Perfeição e Disciplina. Como o Universo.

  Assisti a uma entrevista, gravada, de Joseph Campbell ( O Poder do Mito). Toda a ânsia do Ser em criar uma ligação com o Universo.  Um exemplo de Mito. Mexeu comigo.  O mito e a expressão brilhante de seu olhar enquanto falava.
  "Ritual da sexualidade" entre índios: A festa dura dias. Muita dança, cantos. Uma cabana. Uma jovem, nua, deitada no chão. A jovem feliz.  Entra um rapaz para sua iniciação sexual. Depois mais um, outros. Felizes. Cientes de seu fim. Viveriam a sua verdade. No sexto, a cabana desaba. Mortos, assados, comidos.'

 Ainda na entrevista:
Repórter  ─ O mito é mentira!
Campbell ─ O mito é metáfora.
Repórter  ─ O mito é mentira!
  O escritor de repente compreendeu que o repórter não sabia o que era uma metáfora. Também questionou os mitos de hoje: Quais são nossos mitos? O mercado? Isso até 1987. De lá pra cá muita coisa, sutil e velozmente, aconteceu.

Assistindo ao jogo de vôlei da seleção brasileira, sua derrota previsível na quadra, observei um detalhe: em letras chamativas, o nome do patrocinador. Na camisa, no peito. Um pequeno símbolo, acima, se referia ao Brasil.
  Não era assim. Lembro-me das letras destacadas e inflamadas de entusiasmo -Brasil - nas camisas - verde - amarela - dos atletas. Eles representavam o Brasil. Tinham consciência disso. Eram nosso orgulho, éramos nós lutando - para vencer. Livres no patriotismo, no grito, na torcida, na alegria. Queríamos a Perfeição. A vitória. Foi uma sensação estranha.
  O detalhe na camisa me marcou. Como o brilho dos olhos do escritor, no caso horripilante narrado. Depois entendi que ele vibrava pelo mito em si. Este acabou. Outros não. Outros evoluíram. E fez a dramática pergunta: Quais os mitos atuais?
De lá para nossos dias, a humanidade deu um salto. Para o abismo? Cabe às gerações ainda presentes decidirem.
  
 Voltei ao jogo. O repórter, no desespero, gritava. Faltou técnica, faltou trabalho! Faltou responsabilidade! Disciplina! Faltou garra! Não pode deixar de receber a bola! O que é essa indecisão! Isso é levantamento?  Que tática!? Brasil! De repente um grande movimento. A torcida dele vai à loucura. Mais decisão! Mais potência na luta! Quanto mais erros você cometem, mais são dominados!  E a derrota. Não eram livres para a vitória.

Suas palavras  eram a ânsia de perfeição se manifestando, de liberdade abrindo uma brecha para a vitória, no grito de desespero ante a imagem da tristeza. Era comunicação íntegra, eficaz, que não comportava derrota. Mas aceita, cabisbaixa, coração apertado.

Onde nossos mitos para explicar o homem e o universo?
Fala-se no mercado, nas ideologias políticas ultrapassadas, que fazem e desfazem seguidores, que distribuem medalhas e  que criam suas próprias metáforas. Transformadas em realidade. E aguentemos os mitos arcaicos que nos dominam, dominam metade da humanidade, como os religiosos. Alguns de dois mil anos atrás. Outros mais. Outros recentes. Com personagens falsificados em tramas servis. A ciência é que defende a liberdade. Somos descendentes de símios. Agimos por imitação. 

Se mito é metáfora, ele não é mentira, mas não é realidade! Aí o problema. Transformar o mito em realidade. Mitos caducam. Aprisionam. São ninhos de preconceitos, de ignorância, são 'algemas invisíveis' (metáfora). Aí um empecilho para a liberdade. Aí o blefe imposto à humanidade.
Um vitória tem sua engrenagem. Na derrota do Brasil, ela não esteve presente. A liberdade tem sua essência. Me lembrei da Gestalt, de um seu princípio básico: o paradoxo: liberdade necessita de disciplina. Aprendi isso cedo. A minha e a compartilhada. Na comunidade. Na nação. No mundo.
Depois... o jogo de tênis. Federer jogando. A platéia iluminada com jogos de luzes, destacando rostos. Alegres, torcendo, vibrando, livres. Um cartaz se iluminou, uma metáfora brilhou: SE O TÊNIS FOSSE RELIGIÃO, FEDERER SERIA DEUS.
Nessa religião eu entraria: ELE lidera como gênio, lidera pela perfeição, pela liberdade, pela competência, pelo exemplo, pela emoção, não dita leis, não promete nada e não manda recados.
P.S. "Seus olhos (dele) são estrelas." Uma metáfora. Transformada em comparação: 'Seus olhos brilham como uma estrela brilha. Olhem mais atentamente para o seu olhar. Verão a liberdade.
Liberdade é comunicação.
                                                                                                         Joana Rolim

Joana Rolim: - Você escreve, de forma metafórica ou não, mas sempre com aquela condição indelevelmente sua, de criar uma imagem com palavras. Se alguém disse que "uma imagem vale mais que mil palavras", você com poucas plavras, cria mil imagem. Cada pessoa que lê seus escritos, tem mitos aceitos e metáforas não entendidas. Seres "mitó'ticos", não mitológicos, teimam em "ver" a vida, dentro da "ótica" de cada um, mas se têm "liberdade" para "enxergar"..., é outra história. À condição de Mitos, com facilidade, Poetas como nós são elevados. Nossas metáforas criam e dão liberdade a quem não tem. Se temos tais "Dons" que o vivamos ao menos..., com verdade ! Jinhos. em Metáforas de Liberdade
em 08/06/12
Mito se torna mito quando um coletivo tem uma crença em comum... é como você disse, um empecilho pra liberdade, e falando nela acho que a comunicação é autentica quando sai primeiramente de si e não do outro em você,que é mais cômodo ... Será que o livro, O poder do mito, já ficou démodé? A jornada do herói não está desgastada? :>)Beijo, Joana! em Metáforas de Liberdade
em 07/06/12

domingo, 20 de maio de 2012

O sensual, de uma forma só nossa: A Cultura do Medo

O sensual, de uma forma só nossa: A Cultura do Medo: O filme MELANCOLIA é o medo  transformado em uma metáfora artisticamente concebida. Com louvor. Uma imagem lindíssima, que aterroriza. É...

A Cultura do Medo


O filme MELANCOLIA é o medo  transformado em uma metáfora artisticamente concebida com louvor. Uma imagem lindíssima, que aterroriza.
É um filme sombrio, com suas personagens debilitadas pelo medo e pela maldade. Difícil de assisti-lo devido à tensão que causa na mente. Mas o final é grandioso, quando o planeta Melancolia destrói a Terra, após as palavras da protagonista: " A Terra é Má".  Com uma imagem impressionante criada pelo Diretor, o Planeta absurdamente agressivo... Não vou contar o final.
 O Diretor, mestre de cinema, Lars vonTrier, constrói uma obra de arte. Com louvor. Com verdade.

 Em nossos primeiros rituais, ainda sem consciência, nos cravam na testa uma cruz (sofrimento) e sal na boca (amargura) e nos põem o medo do inferno. Ou o ritual nos mergulha na água, com a sensação de afogamento. E  outro rituais de seitas secretas, com suas práticas tortuosas e cruéis, ou de religiões diversas, eternizam banalmente  medo. Mesmo em universidades, seu ritual de iniciação vai a extremos. É a história do homem. O medo do inferno, o preconceito, o banditismo, o espertinho ( isto é, o safado), contos de fada ou contos-cão, mitos asssustadoramente tenebrososos, fruto da mente humana, a obsessão pelo crime, pelo sangue, dão a cor do luto da civilização, disfarçados no produto que consumimos.

Que ser humano se conserva verdadeiro ao poder de 'xamãs' antigos e modernos, dominadores, que atravessam os tempos se encarnando em 'líderes maléficos', que tem na mente a morte do outro, a destruição do outro, de sua alma ou de sua vida? Exemplos temos em quantidade.

Ler Joseph Campbell, em O Poder do Mito, é ler o massacre da crueldade. O homem não evoluiu, expandiu a maldade. Somos uma civilização com medo. Do medo banalizado.

Este livro eu li. E compreendi. A Cultura do Medo. Barry Glassner.

O livro abre uma discussão sobre um dos maiores problemas da atualidade: o medo fantasmagórico que nos domina. Pode-se entender que se vive numa cultura do medo, fabricada por alarmistas, e seus protagonistas são: mídia, imprensa escrita, jornalistas, grupos ativistas, empresários, religião, politicos...(Exceções há.) Destacando crimes, enfatizando a violência, adulterando números, dados estatíticos, dominando o noticiário e, principalmente, aproveitando-se das limitações das pessoas, vendem o pânico como produto. E lucram!
Primeiramente há que se distinguir os medos válidos - que nos dão dicas sobre perigo, dos medos falsos e exagerados - e são estes que dão o ponto de partida para o autor desvendar suas causas , o que é envolvido propositalmente, a fim de alimentar essa indústria, onde, em manchetes cruéis, crianças se tornam “crianças assassinas”; adolescentes se transformam em “mamães monstro”; bêbes de mães drogadas são os “bebês do crack”; a”fúria do trânsito” define simplesmente os problemas dos motoristas; o 'politicamente correto' supera o bom-senso; os preconceitos são alimentados; drogas e doenças metafóricas são criadas.
 
E como esse produto é vendido? Usando uma mesma técnica para conflitos sérios e perigos frívolos. Os alarmistas usam a tática dos ilusionistas, que direcionam a atenção do público para longe do lugar onde ele esconde os objetos. Camuflando os verdadeiros problemas em vez de enfrentá-los, têm seus métodos. Utilizam-se de estratégias e truques para torná-los verossímeis: armações teatrais; mistura de roteiros de ficção com fatos; narradores profissionais e âncoras de telejornais, que mesclam declarações próprias com pessoas críveis, sempre com acréscimo de pseudo-analistas, 'se não houver manchetes alarmistas, não teremos telejornais'; banalização de coisas sérias e o engrandecimento das questionáveis, que podem ser usados como arma em outras disputas, pois transformam rumor em fato, maquiando sua essência; transformação de indivíduos isolados em 'tendência', tecendo histórias fantasistas, com estatísticas manipuladas. Todas resumidas em manchetes sensacionalistas .
A expressão 'crianças assassinas' pode nomear gerações? Por que falam de mortes causadas por armas e não das armas em si? Ou da 'fúria do trânsito', sem se preocupar com o álcool, do 'suicídio de adolescentes' , evitando focar as armas usadas , do “medo de voar” - 'Segurança aérea sob suspeita'- sem mencionar que uma viagem por terra tem mais chance de acabar em tragédia?
A técnica de pensar doenças como metáforas ( imaginar vírus como exércitos invasores em vez de matéria orgânica”) impede as pessoas de cura. Também se criam doenças metafóricas - como a neurastenia - para justificar medos, preconceitos e ideologias políticas. A informação de que o câncer nos seios é originário de próteses mamárias - que deu um lucro absurdamente elevado a advogados e apresentadores de “talk shows” em detrimento de fabricantes de dispositivos com silicone, como vávulas cardíacas - se revelou falsa. Assim também com a vacina tríplice, quando a nomearam como causa de doenças.
Hillary Clinton é um exemplo dessas táticas. Enquanto ela pedia, em uma turné, a atenção à saúde, à creche, à nutrição da juventude, a mídia trocou o foco: ela era o assunto, por problemas pessoais. Também fazem celebridades (falsas), como W. Farrakhan - que pôs em dúvida o Holocausto, na Universidade de São Francisco.
A promoção do alarmismo está nas declarações presidenciais, nas estatísticas seletivas, na representação de alguns jovens com histórias dramáticas, que comovem as pessoas.
Mas por que o gosto de transformar um fato em medo? Talvez por ser uma ocasião em que outros assuntos pudessem ser abordados!
O autor concorda que há violência demais na TV. Mas a mente de uma criança ou jovem, ao tomar conhecimento de um mundo agressivo, tem seus ideais destruídos, torna-se amedrontada. Isto não é saudável para a sua formação, levando-se em conta que os casos não são minimizados mas, sim, exagerados. E o autor cita Sócrates: “As crianças não distinguem o alegórico e o que não é  - o que elas aprendem é difícil de modificar”
Quem paga o preço do pânico é a população. Verbas governamentais são desviadas: cortes com educação, saúde, programas sociais, fraudes são forjadas para justificar guerras. É a violência contra o próprio povo pelo poder político. Que truques tolos para concretizar seus objetivos! .
Historiadores põem a culpa das ondas de violência em fim de século ou de milênio, evitando o tema da pobreza, do conflito religioso, das drogas, em sua raiz. E são os cidadãos que pagam também o preço - tememos a violência em vez de temer a desigualdade de renda ou a pobreza; tememos assassinatos em vez de temer as armas. Focar a violência cria uma curiosa fórmula: (+punição+prisões+penintenciárias+verbas+desvio de verbas+ corrupção+violência).
Quem lucra? A indústria do medo, sustentada financeiramente por ela mesma. A indústria farmacêutica, por exemplo, é a mais lucrativa entre os maiores anunciantes nos diversos tipos de mídia.
Mas por que as pessoas aceitam como fato as assertivas que se mostram improváveis, mesmo cientes de que tais notícias estão eliminando o otimismo de dentro delas e colocando em seu lugar o negativo? Porque o sucesso do pânico se expressa em ansiedades culturais prementes!
A conclusão é que com discernimento, bom senso, pode-se distinguir o que é verdadeiro do que é falso.
Discernimento!!!! 

Em tempo:

Tomás de Iriarte: "Ao burro, se lhe dão grão, come grão; porém toda vez que lhe dão palha, come palha.  Vamos à palha".
                                                            Joana Rolim


domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

Falar de livros que não lemos




Nas Livrarias Curitiba. O Sensual, de uma forma só nossa.
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FALAR DE LIVROS QUE NÃO LEMOS.
(Pierre Bayard)
Falar de livros que não lemos? !!! Podemos sim. Podemos e devemos! Sem culpa ou vergonha! Enfrentando o desafio. Isto porque Bayard tira o livro do “pedestal sagrado” que a 'cultura' o colocou e nos dá o poder total sobre ele.É um conceito inusitado e um estranho desafio. É sim. É uma aventura inesperada no mundo dos livros: Como falar de livros que não lemos?

Para ele, a leitura é um ato de liberdade, sem regras, leve e divertida, e nos apresenta inúmeras maneiras de abordarmos um livro, principalmente não o abrindo...e falando dele! Como? Considerando o livro como uma segunda língua, com a qual falamos de nós mesmos e falamos com os outros. Isto é comunicação!

Por que com o livro falamos de nós mesmos? Por que não é ele que está em causa e, sim, um jogo com várias opções. Ele é o pretexto ou o meio para nos comunicarmos e transformar o momento-situação em passagem para o encontro de nós mesmos, conscientes de que já está sendo esquecido, mas que fez parte significativa da construção de nosso mundo interior (*livro encobridor).

O importante é considerar o livro lido, não-lido, falado, ouvido, desconhecido, folheado, esquecido, fantasma, como um objeto móvel, num processo em podemos impor nossas idéias, transformando um momento, uma situação em algo único, singular, onde podemos nos tornar um criador. E um criador pode se tornar um escritor.

Como criadores, podemos conquistar as pessoas, entrevistar um escritor, mesmo não tendo lido seu livro, fazer uma crítica, que é uma obra de arte, e considerá-la uma autobiografia e muito mais...
Poderemos construir um mundo singular com noções de cultura e literatura. Liberados do “dever” de ler, hábito aprendido na escola, que nos cobrava, através da ficha de leitura, a tortura de ter de lembrar de detalhes, de exigir a perfeição ( que nem o escritor se recorda) podemos “reinventar o livro”! Ah! Sem esquecer que no ato de começarmos a ler, já começa o processo de esquecimento. E quem não esquece?Ah! Se soubéssemos, como Oscar Wilde afirma, que 6 minutos de leitura basta para conhecermos um livro, ou sobre a dica de um pintor, à pergunta de uma criança, sobre um livro aberto em uma página, que só aquela página que ele abriu já lhe bastava para saber sobre os dois personagens.

Podemos aprender com mestres da não-leitura, como Paul Valéry, Montaigne, Balzac, Oscar Wilde, que afirmavam que não liam livros dos quais ele deveria fazer críticas. Somos capazes de decifrar situações de falar ou ouvir sobre um livro não-lido. O monge Baskerville (Humberto Eco _ O Nome da Rosa) decifrou o mistério das mortes na abadia causadas por um livro, e construiu o seu enredo, sem abrir suas páginas, envolvendo-nos com o conceito do riso. (Poética, Aristóteles).

Ou podemos aprender com o “esteta de óculos dourados”, personagem de Eu sou um gato (Masumi Soseki), que nos ensina como podemos ser iludidos por pessoas com palavras elogiosas a um livro ( que não é), mostrando-nos as armadilhas dos que se dizem 'cultos'. E se perguntássemos a eles se leram as notas dos rodapés páginas ou  historiografia oferecida sobre o assunto em seus livros?

Falarmos de livros que não lemos? Claro. Podemos fazer como os Tiv (povo africano), que discutiram Hamlet sem lê-lo, ou como um personagem de Graham Greene, que falou de um livro do qual era autor, mas que não o leu. Bill Murray, personagem do filme, O feitiço do tempo, conquistou sua amada sem ler os livros dos quais citou trechos.

Enfim, libertos, temos um aprendizado: um mesmo livro é diferente para cada leitor, pois pertence ao universo interior de cada um. Depois é só colocá-lo na biblioteca coletiva ou na virtual. Então, de maneira lúdica e com prazer, falarmos dele sob nosso ponto de vista, sabendo que ele fez parte significativa de construção de nossa própria cultura.

Bayard não leu Joyce, Proust, mas falaria sobre eles só com o que ouviu, leu e não se envergonha. E esta vergonha, este complexo de culpa que ele nos tira, nos dá a oportunidade, ao falarmos de um livro não lido, de fazermos uma criação, e de nos tornarmos escritor!

Falar de livros que não-lemos! Vale tudo, folheá-los, abri-los em qualquer página, lermos orelha de livro, comentários, críticas, crônicas, ensaios, nota, resumo, idéia e, assim, saboreamos a ventura de falar dele. O que importa é saber nos orientarmos, situarmos o livro e o autor dentro de um contexto e relacioná-los com outro. Como um bibliotecário. Ele não precisa ler todos os livros da biblioteca. Basta ler o catálogo para situá-los, e tem ótima conversa com quer que seja!

Bayard não escreveu para que as pessoas parem de ler. É para tornar o livro um incentivo a mais. E para dizer que um homem “culto” pode não ler livros. Mas é preciso ter claro o conceito de que NÃO LER UM LIVRO NÃO É AUSÊNCIA DE LEITURA.

*Livro encobridor ─ que vai em direção a nossa infância, nossos dilemas, traumas, prazeres. (Lembrança encobridora─Freud)

domingo, 8 de abril de 2012

Tempo de Ser

 Nas Livrarias Curitiba, o livro de poemas, O sensual, de uma forma só nossa.

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         Marca um livro
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         Ou vidas

 A todos que têm só o marca-páginas.
                                                              

                                                              
                                                                TEMPO DE SER
                                Do livro -  O sensual, de uma forma só nossa
      
TEMPO DE SER

Você chegou,
Olhos castanhos, olhar profundo,
Gestos delicados,
Docemente abriu seus braços.
Me fechou.

Quem é esse ser-gigante que me abraça?
Me esconde o mundo
Com seu corpo sensual?
Me faz tão pequena,
Amante do aconchego?

Que alma é essa?
Me  entrou profundo,
Atravessou meu ser?

“É teu mestre neste agora”,
Disse o tempo.
“Vai te carregar em seus braços,
Te fazer encanto e fantasia,
Vai afugentar teu ego,
Mas te deixar o suspiro.

Na ausência das palavras,
Na contorção do prazer,
Quando as mãos tocam
O íntimo de cada ser,
E a carícia-sensação do que não é
Se faz real,
Sem mente, sem julgamento,
Vai te transformar em vertigem,
Colando os lábios dele nos teus,
‒ beijo vaidoso do desejo dele
De te possuir. ”

Joana Rolim 


                                  

domingo, 11 de março de 2012


A guerra silenciosa . Na Livraria Varal do Brasil

E um cartaz.

      
Cartaz da Livraria Varal do Brasil -

  26º SALON INTERNATIONAL DU LIVRE ET DE LA PRESSE
GENÈVE 25AVRIL - 29 -AVRIL - 2012      
       










Texto publicado na Revista Varal do Brasil  (nº 14, março-abril)
                                                    www.varaldobrasil.com

                  
                                              A Guerra Silenciosa

  Era uma vez uma cidade, Curitiba, cidade-jardim, cidade das araucárias, da gralha azul. Flores, muitas flores. A flor é sorriso, esperança, um ideal a se fazer,  a gratidão pela vida. Cidade de clima frio, povo frio ( a queixa de quem para aqui vinha), paradoxalmente  acolheu imigrantes europeus, que traziam uma visão de um primeiro mundo evoluído, ou a dor de uma guerra estridente, feita de tiros. Para um lugar de paz. Havia paz.

  Cidade-teste, a classe teatral confiava em seu discernimento: estréia em Curitiba ─ o sucesso ou o fracasso. Com suas características de pequeno povoado bandeirante (1693), se desenvolveu absorvendo costumes, trabalho e responsabilidade, que caracterizavam seus cidadãos. Idioma respeitado, virava piada com a pronúncia exata: "leite quente", ou vocábulos só aqui falados: guri, guria.

  Era uma cidade de tradição, seus moradores a fizeram assim. Com orgulho. Como também era orgulho seu sistema de transporte, seus parques e praças, o cuidado com o meio ambiente. Foi considerada cidade-modelo, e como a cidade com melhor qualidade de vida, (2007-Reader's Digest). 

  "Era uma vez..." Não é mais. 2012- fevereiro: Curitiba, a cidade mais violenta do Brasil. O choque, a pergunta. O que aconteceu? Por quê? A arma silenciosa do pouco caso: periferia inchada, crescimento da pobreza, ausência de política governamental, que se insinuaram silenciosamente durante os poucos últimos anos, fazendo da violência, da guerra inominada, arma secreta, com silenciador. Eficiente. 

  Alguma  semelhança com outros estados do país?

  Leio antes Bertrand Russel (meu filósofo preferido, que me ensinou o bê-a-bá da vida). "Evidentemente o pensamento não é livre. Se proferir certas opiniões torna-se impossível encontrar um ganha-pão."

  Mas vá lá. Está na imprensa, está nas ruas, está na mente do povo. Mas... com a violência não se brinca. Vou falar.

  Brasil─agora, as 'asas' da liberdade  foram cortadas. Um pássaro sem asas. (Sabiam fazer metáforas. Confundiram-na com o Espírito Santo.) E o sinal vermelho-sangue se ilumina. Todas as manobras são feitas para calar a imprensa, calar os escritores. A língua portuguesa tem que ser descaracterizada - o patrimônio de um povo tem que ser dilapidado.
Calar o povo? O povo não fala! Precisa de uma língua para expressão? Contando que dê para se fazer entender. 'Eu vou comprá  dois pão." E daí em diante, assiste-se ao doloroso espetáculo do desmoronamento de uma nação. Desestimula-se a leitura, substitui-se pela História em Quadrinhos  (Nada contra ela em si). E vê-se o fiasco de um Enem, sem perfil, sem cuidado (propositalmente) para ajudar afilhados ou ignorantes, diante da intriga escabrosa de questões antecipadas para 'privilegiados', tornando a maioria 'tola com caneta".

  Onde o movimento estudantil em busca da cultura? "O governo os embebedou e lhe prometeu 'ministérios' E lhe dá dinheiro para orgias, regadas  a wisque e vodca  - com o lema ' revolução pela garrafa' (Veja,2/11/11) e, no chão molhado, encharcam seus Nikes e Adidas." Nós pagamos. Sem reclamar.

  Mas é a vez da ideologia comunista no poder. Têm que mostrar a sua cara. A historia é cíclica, e hoje, 'contrariando seus princípios' deitam e rolam na corrupção. No governo. (Veja,2/11/11).

  Liberdade?! Ideais afogados. Onde o povo? É domesticado, não fala em liberdade. Paradoxo: são livres no servilismo.

  Onde estão nossos filósofos, escritores, líderes?

  E as perguntas:

 (Às igrejas.)
 ─ Os mandamentos fizeram do Brasil um mundo melhor?

 (Aos 'ditadores'.)
 ─ Saciaram com ouro e maldade sua criminosa alma?

(Aos corruptos.)
─ O dinheiro do crime os fez livres?

(Aos nossos juízes.)
─ Colocar a toga os fez autoridades para defender nossas leis?

(Ao povo.)
─ Já ouviram falar da palavra LIBERDADE?

  Foi tudo tão silencioso. De repente, a prisão, as tragédias, e encarceraram o povo. Ninguém ousa...! A dissidência foi comprada.
Quem foram os déspotas monstruosos que governaram com tiros abafados, sorriso de hiena, ideologias arcaicas, ao som do samba, ou do grito de Gol!!!

  Mas o governo não sabe de nada! Guerra? Temos a paz, dizem eles. Representada pelo pombo sangrento, também confundido com o "espírito santo"?

  A palavra calada. A mente calada. A guerra silenciosa, sem tiros, com a máscara da paz. O povo enganado.E a constatação: Governar não é para qualquer um. 

  Onde o líder-gênio que transformará o Brasil em uma nação e o ensinará a paz, a justiça, a liberdade no pensar e em seus deveres e  direitos?

  P.S. Não confundir com o 'gênio' preso na garrafa que, quando liberto, realiza sempre três pedidos. É uma boa piada, enquanto piada. Mas banalizá-la em tragédias...

                                             Curitiba, nós te amamos!

                          Joana Rolim.